“Temos tudo, mas não temos nada”: A geração invisível de Moçambique clama por emprego e dignidade
Num país banhado pelo oceano, rico em recursos naturais, terras férteis e uma juventude vibrante, a pergunta que ecoa nas redes sociais, nos bairros periféricos e nas filas intermináveis de espera por uma oportunidade é uma só: se Moçambique tem tudo, por que os seus jovens não têm nada?
O sentimento de abandono tomou conta de grande parte da população, que vê, dia após dia, a promessa de um futuro melhor ser adiada por discursos vazios e políticas que não chegam aos mais necessitados. “Quem governa este país já não gosta de nós”, desabafa um jovem de 24 anos, licenciado há dois anos e ainda à procura do primeiro emprego. “É como se fôssemos invisíveis. O país tem gás, tem carvão, tem sol, tem terra… mas para nós, jovens, só sobra a ‘bola’ e a espera.”
O paradoxo moçambicano: riqueza no papel, pobreza na prática
Moçambique é um dos países com maior potencial de crescimento no continente africano. Grandes projectos de exploração de gás natural em Cabo Delgado, megaprojectos minerais em Tete e um sector agrícola com potencial para alimentar a região contrastam com a realidade cruel: mais de 70% dos jovens moçambicanos estão desempregados ou subempregados, segundo dados de organizações nacionais e internacionais.
A falta de oportunidades transformou-se num barril de pólvora social. Sem emprego, sem formação profissional adequada e sem perspectivas de futuro, muitos jovens vêem-se obrigados a aceitar trabalhos informais mal remunerados, a emigrar de forma ilegal ou, nos casos mais extremos, a cair no crime ou no aliciamento por grupos que prometem sustento em troca de lealdade.
“O país tem tudo, mas não desenvolve”
A revolta não é apenas contra a falta de empregos, mas contra a gestão dos recursos que deveriam servir para desenvolver a nação. Enquanto os relatórios internacionais destacam o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) impulsionado pelos megaprojectos, as famílias moçambicanas sentem no bolso o peso da inflação, do custo de vida elevado e da ausência de serviços básicos.
Os jovens questionam: onde está o investimento em parques industriais? Onde estão as linhas de crédito acessíveis para pequenos negócios? Onde está a aposta na educação técnica que realmente prepare para o mercado de trabalho? A resposta, para muitos, está na falta de vontade política e numa visão de governação que privilegia poucos em detrimento da maioria.
Uma geração no limite
A paciência está a esgotar-se. As redes sociais fervilham com memes de revolta, vídeos de desabafos e relatos de humilhação enfrentados em entrevistas de emprego que pedem “experiência de 5 anos” para funções básicas. A juventude moçambicana, que foi protagonista de importantes mudanças políticas no passado, sente-se agora refém de um sistema que a exclui.
“Não pedimos favores, pedimos oportunidades”, afirma uma activista jovem, que prefere não se identificar. “Queremos estudar, trabalhar, construir as nossas famílias e contribuir para o desenvolvimento deste país. Mas como fazer isso se o governo nos trata como se fôssemos um peso? O futuro do país somos nós, mas parece que quem governa quer um país sem futuroLeia Mais
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